Mulheres autistas e o desafio da maternidade

Mulheres autistas e o desafio da maternidade


Entrevista com Maria L Domingos autista e mãe.

Nós estamos no ápice da globalização das mídias sociais, atualmente a busca de informações a respeito de qualquer assunto tornou–se trivial e fácil, com apenas dois cliques na tela do seu celular você tem as respostas para sua pesquisa.

Os aplicativos mais populares, entre jovens e adultos ao redor do mundo, Instagram e Facebook, além de serem espaços de interação e recreação social, também se tornaram espaço comum ao compartilhar fotos e depoimentos de quem possui um transtorno mental, doença crônica e síndrome. Profissionais da área de saúde também transmitem informações valiosas a respeito de diagnóstico, sintomas e tratamentos.

Nesta interação virtual, pessoas que seguem, esses perfis se identificam, despertando dentro de si interesse em buscar soluções para suas angústias.

 Não é diferente quando se trata do tema AUTISMO. No Brasil os diagnósticos de autismo entre adultos homens e mulheres têm crescido consideravelmente sobretudo a partir dos diagnósticos dos filhos.

Atualmente, existem mais possibilidades de encontrarmos profissionais capacitados em atender a demanda de autismo infantil, mesmo enfrentando alguns obstáculos, como por exemplo, a demora do SUS em oferecer atendimento e fornecer um laudo e em algumas clínicas de plano de saúde particular, “tentam limitar” os números de atendimentos sendo insuficientes para cada caso.

 Todavia, as descobertas das mães e pais, ao se depararem dentro do espectro autistas, também veem crescendo significativamente e isto impacta diretamente no relacionamento pessoal e familiar dessa mulher que, além de cuidar dos filhos e da casa, necessita de cuidados com sua própria saúde emocional e tratamento especifico para a demanda que exige a tríade do Transtorno do Espectro Autista – TEA, levando em conta que no sexo feminino existem peculiaridades diferentes do autismo masculino.

Pensando neste público específico, de mulheres e mães recém diagnosticadas com autismo, eu tive a iniciativa de realizar uma entrevista aberta com minha amiga que é mãe de um casal, Maria Fernanda 20 anos e Henrique com 3 anos e 6 meses diagnosticado com autismo. A mãe, profissional de neuro psicopedagogia, divorciada e autista, para que vocês queridos leitores, conhecerem um pouco da rotina dessas mulheres e despertarem empatia por elas.

Maria Lúcia, você se lembra como foi a decisão de ser mãe?

Minha gravidez não foi planejada, senti muito medo quando descobri, mas depois me acostumei com a situação e isso foi uma motivação gigantesca, para mim. Já a minha segunda gravidez, eu tinha 36 anos, foi totalmente atípica. Até o 5º mês de gravidez minha menstruação continuava a descer e eu não tinha nenhum sintoma de gravidez. Quando descobri foi realmente um susto muito grande: muito medo... saber que estava grávida de cinco meses. Sempre pensei em ser a melhor mãe que poderia ser.

Como foi lidar com o processo de gestação? Você sentia muito desconforto físico?

A primeira gravidez decorreu perfeitamente, tive enjoos matinais, mal estar, cansaço, inchaço, câimbras e engordei 23 kg. Eu estava muito feliz com a gravidez e esperava ansiosamente a minha filha, mas sempre com muito medo, de tudo, medo de não ser boa mãe, medo de não dar conta do recado, medo de acontecer alguma coisa com ela... Eu sempre fui muito medrosa e em situações novas ainda mais.

A minha segunda gravidez, eu não senti desconfortos físicos e isto foi espantoso para mim. Descobri, que estava grávida com 5 meses e pedi muito para Deus cuidar da gente. Ele sempre seria muito amado e eu já sabia, que ele seria uma grande lição na minha vida.

Qual foi a sensação de olhar para seu filho após o parto?

Nossa! é a coisa mais incrível, que me aconteceu na vida, é um misto de sensações que vai do medo até o auge da felicidade de ter nos meus braços um pedacinho de mim.

Em relação a seus hábitos e rotinas pessoais, ter um filho, te fez adaptar a rotina em prol dele?  

A minha adaptação foi praticamente automática, parece que meu cérebro simplesmente reprogramou-se e não tive muita dificuldade com esta nova rotina, (isso porque meus filhos viraram o meu hiper foco).  Me sinto feliz e muitas vezes penso que se eu não os tivesse na minha vida eu não seria nem metade do que sou hoje.

Nos seus momentos de “dias ruins”, qual o sentimento que mais repercutia em sua mente?

Esta é a parte mais difícil para mim. Em meus momentos de isolamento e ficar no banheiro por um tempinho várias vezes ao dia. Lá é meu refúgio para momentos de crise e de desordem. Mas logo me reestabeleço e bola para a frente.... até o próximo Pit Stop no banheiro.

Aos olhares de outras pessoas, que não são do seu ciclo familiar, como você se impõe como mãe?

Eu não penso muito no que os outros vão pensar não, só em algumas situações muito pontuais. Acho que cada um educa da forma que acha correta e não ligo muito para opnião dos outros. (ligo para minha opinião e eu acho que tenho que educá-los da melhor maneira possível).

Quando você fica nervosa com algumas atitudes de seus filhos e se desregula em público, como se sente depois?

Sim, isso é muito comum quando saimos, principalmente agora com o Covid-19, não consigo desgrudar do Henrique, para ele não colocar a mão nas coisas, no chão ou no corrimão. Fico gritando o nome dele (Henrique nãoooooooooo), um fiasco (eu me odeio nesta hora).  Eu não consigo me controlar, fico muito nervosa e logo tenho que ir embora e ao chegar em casa, fico pensando no fiasco que eu fiz e sofro.  

Maria Lúcia, deixe um recado para mães que recém descobriram ser autistas.

Eu descobri aos 40 anos minha condição, depois de mais de 20 anos de tratamentos diversos, com psiquiatras, neurologistas, psicólogos e muitos exames e testes que chegaram em vários diagnósticos errados. Foi muito tempo, sem reconhecer –me e sem saber o que eu tinha exatamente. Tratei a depressão, ansiedade e síndrome do pânico, só quando desconfiei que meu filho podia estar no espectro autista. É que eu, fui ver como possuía muitas características que se enquadravam neste transtorno. Eu estudei muito, fiz pós graduação em neuropsicopedagogia e mais de dez cursos sobre Transtorno do espectro autista e Educação Especial. Então, não havia mais dúvidas nenhuma da minha condição e fui procurar um neurologista especialista em Autismo e foi aí, que tive meu diagnóstico. Criei meus filhos sem saber da minha condição, mas sabendo que tinha muitas dificuldades, aonde as outras mães não tinham e em contrapartida observei que eu também tenho facilidade em coisas, que para as outras mães podem ser mais difíceis.

Mas no final, nós sempre conseguimos superar!

 

@neuropsicopedagogamalu

Fotografia com permissão para publicação, neste artigo exclusivamente.

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